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quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Abraço de sanhaço



Abraços são braços dando um  laço. 
Laço é azul amarrado em pedaço. 
Pedaço é traço do abraço. 
Traço é braço fora do abraço. 
Braço é despertar de abraço. 
Despertar é abraço que amassa - antes de ser afrouxado. 
Afrouxado é casal antes de amasso. 
Amasso é abraço de sanhaço.

E quem souber imitar canto de sanhaço ganha amasso e abraço.

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Ponto de vista



Chegou o dia. Sala vazia. Malas trancadas. Janelas abertas para o Jardim Botânico. Pedro, acostumado às chegadas e partidas do pai, que pelo que podia lembrar, sempre morara em Nova Iorque. 

Em Manhattan, é o pai que agora espera por eles - Pedro, Matheus e a mãe deles. Não é viagem de férias como as outras. É mudança. Pedro olha. O Brasil, a família, os amigos da escola, os vizinhos, a rua, a Lagoa.

 - Mãe, e agora? Tudo acaba ou tudo fica? 




(27/10/2015, para Jacqueline, Pedro e Matheus)


sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Lenda, Lenda

Quando você redescobrir o Brasil
Não tenha medo de bicho grande que voa
Nem de montanha que anda
Nem de gente que tem olhos no mar
Quando você redescobrir o Brasil

Quando você redescobrir o Brasil
Não tenha medo de comer algo que pula da árvore
Não vigie os ouvidos para que não entre choro de Pixinguinha
Não evoque todos os santos, receba os orixás com os mares, os ventos e os luares abertos
Quando você redescobrir o Brasil

Quando você redescobrir o Brasil
Prepare-se para mexer o taxo de goiaba madura
E o taxo de banana madura
E o taxo de leite no seu caldeirão de cobre
Não para que vire doce,
Você vai ver que o nome dessa receita é felicidade
Quando você for redescobrir o Brasil

Quando você redescobrir o Brasil
Abandone os sapatos
Para andar pelos grandes sertões e pelas veredas
Abandone as horas
Quando for ler os muitos os que você precisa ler
Quando você redescobrir o Brasil

Quando você redescobrir o Brasil
Aprenda a língua dos riachos
Pinte o corpo para dançar
Coma desprezando colher
Alias, por favor, desinvente o talher
Quando você redescobrir o Brasil

Quando você redescobrir o Brasil
Espere o breu da noite acender as estrelas
E tente acender o fogo com as mãos
Deite-se em comunhão com os seres que chegarão sem serem vistos
Para ouvir os seus pensamentos
Quando você redescobrir o Brasil

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Adivinha do tempo ao vento


O tempo perguntou se o vento podia levar pra longe toda a dor que há no mundo
O vento respondeu ao tempo que enquanto houver vida no mundo haverá a dor

O tempo perguntou se o vento podia levar pra longe toda a solidão do mundo
O vento respondeu ao tempo que enquanto houver homens no mundo haverá a solidão

O tempo perguntou se o vento podia levar pra longe toda a ingratidão do mundo
O vento respondeu ao tempo que enquanto houver coração no mundo haverá a ingratidão

O tempo perguntou se o vento podia levar pra longe todas as pedras do fundo
O vento respondeu ao tempo que as pedras construíram versos
Dos poemas que há no mundo

O vento perguntou ao tempo quanto tempo o vento tem
O tempo respondeu ao vento que o vento tem muito tempo
Em quanto tempo ele vem?

Se ele não vier com o vento
Eu invento enquanto é tempo

Outro tempo pro meu bem

(2003 - Para Marina, irmã mais bonita que eu podia querer) 

sábado, 21 de setembro de 2013

Alguém não viu a Lua?

O Tempo passou, o expediente da Noite acabou, mas o Sol perdeu a hora de dar bom dia. A lua estava cada vez mais... lunática. O astro-rei estava muito preocupado:
- Lua, pare com essa bobagem de se apaixonar a cada esquina por gente tão diferente de você.
Perambulando de um lado pro outro, a Lua só suspirava, sem nada responder ao Sol.
- Tatu não vê a lua... Tatu não vê a lua...
- Minha cara, isto é uma fase... Você já se apaixonou por essa Terra inteira e todas as suas paixões duraram apenas algumas noites. Além de terem sido tão frutíferas quanto são macieiras secas por mim.
- Mas esta é a primeira vez que me sinto assim, eu juro!... Dessa vez é diferente... Aquele Tatu vai olhar para mim!
- Você está cega, minha amiga!  Devia ter escolhido uma criatura mais atraente. O que você viu naquela casca dura e naquela bicudo com dente?
- Mais respeito com a minha dor, seu invejoso: o Tatu é ma-ra-vi-lho-so!
O Sol se pôs a rir. E nasceu mais um dia.
O Tempo passou. O expediente do Sol acabou. E a Lua, cheia e vistosa saiu para tentar flechar o seu alvo, escoltada por Vênus.  Os dois formavam uma dupla, que dupla! Como era domingo, a Terra parou pra ver o show celestial.
E eis que o Tatu também viu. E achou-a tão linda... deu uma vontade de chamar a companheira para contemplarem juntos aquela maravilha...
Ainda lá do alto, a Lua não reparou logo que o seu convidado preferido chegou à festa acompanhado por outra dama.  Exibiu-se toda!  Uma estrela meio apagada foi quem a provocou, com uma voz bem escovada.
- O Tatu está gamado, mas não é na senhora, não, Dona Lua! Veja quem está a seu lado...
A Lua ameaçou sumir e não voltar nunca mais, mas Vênus a encorajou a reparar em volta. Quem sabe a dor não ia embora?
- Pense bem, Lua! De amor eu entendo! Todo o povo está fascinado! Vá viver! Vamos aproveitar!
Parece que a Lua ouviu o conselho e antes de o Sol lançar seu raios matinais, se dizia pronta para viver um novo amor...

(setembro/2013)

Canto de encantar passarinho


Um dia o passarinho desapareceu de cantar.  O mais cantador da vila. Todo mundo queria. Até a Firimina e eu. O Nino, que era o dono, chorou. Mais de mansinho, um soluço quase mais desaparecido que o canto do passarinho.
Quando ele quis ver, Firimina mentiu. Disse para a vila toda que “o bichinho estava morrido, tinha sofrido nada, não, bobinho!” Mas enterraram no lá longe para aquela alma perdida não vir cantar e assustar a gente da casa. Foi aí que Nino não prendeu a resposta na boca. Soltou um grito tão alto que fiquei ouvindo por três dias.
-  Mas era tu que vivias dizendo que não gostavas dele, Firimina! Eu gostava que ele cantava pra mim!
Só que era mentira da Firimina. Foi ela que colou, com cola de marinheiro, o bico do pobrezinho. Deu nó nas asas e nos pés do passarinho. Cantar ele não podia mais!  Muito menos dar pulos de lado quando via o dono menino alegrado.
Depois da terceira noite sem esquecer o Nino, decidi comprar os pios que o Zé Pião vende na feira.  Aqueles de madeira.
A partir de amanhã vai acontecer a maior sinfonia que essa vila já ouviu e não ouviu. Eu e o Nino vamos piar os pios-passarinhos até que a Firimina  também mude a ideia dela e faça o passarinho aparecer de cantar de novo. Vai ser o milagre de São Francisco que eu jurei para Nino que acontecia.  Se ele prometesse me dar o passarinho...

 (setembro/2013)

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Coisas



Coisa na janela é flor
Coisa perfeita é abraço
Coisa no salão é serpentina
Coisa que coça é catapora

Coisa lá fora é vento
Coisa no relógio é hora
Coisa indecisa é mola
Coisa que não sossega é tempo

Coisa que faz tintim é taça
Coisa que diz fonfon é buzina
Tererê é aquela coisa na trança
Chose é qualquer coisa na França

Mas isso não é coisa que se faça
Amor não é coisa que passa
Mágoa é coisa amarrada

Coisa alguma se compara
Ao poema - ou coisa que o valha
Que finda seco sem a coisa revelada


(2013)