Escrever é doer pra fora. Enquanto escrevo sobre a dor, o tempo escorre entre os dedos. Escrevo para conversar comigo o que não posso conversar com os outros. Ou não devo. Ou não deveria querer. Era bom que não tivesse nem mais vontade de conversar, conhecer, perguntar, querer. Era bom que fosse só alguém já esquecido porque não tem importância ainda nenhuma na linha do tempo. Uma vez me disseram que eu gosto das pessoas sem saber se é pra gostar, sem saber se a pessoa é digna desse meu gostar. Dou alto valor sem pesar o real valor e depois me frustro. Dessa vez foi longe demais sem sair do lugar. Queimou a largada. E te pergunto sem perguntar se foi de propósito. Sem foi sem pensar que você pensou (e ousou escrever) aquelas coisas. Se foi sem permissão que você se permitiu. Se foi o limite que não te dei que você quis ultrapassar, quis ver onde podia chegar. Se foi por ascendente que você insistiu ou se é de lua. Se é lunático. Não acho as respostas que te levam às perguntas e respostas que você me deu. Tudo acabado sem fim mais uma vez. Mais uma história que ia começar e não começou. Que sina me apontaram, que praga me rogaram? Quem pode falar pra mim o que quer?
Sol De Ler
Quebra-cabeça de palavras em verso, prosa, achados e perdidos
quinta-feira, 27 de junho de 2024
sexta-feira, 9 de outubro de 2020
Sinais
Foi por um triz que não fui atriz
O teatro foi o primeiro doce, o primeiro bom bocado
O primeiro gozo que eu tive
O primeiro gosto na boca, na alma
Foi o blend do camarim
A primeira farejada
O chiado da plateia fervendo
O cochicho de bicho de coxia
Amatriz eu inventei de ser
No teatro eu me derretia
Feito batom no calor do holofote
Era ouvir o gemido das almas do teatro
E eu me desmanchava na poltrona
Os pés empoleirados nas cadeiras
Eu, arrepiada de susto e de frio
Procurava qualquer fio de luz no breu
Encolhida de alegria e espanto
A trilha não conhecia
Mas cantava de cor por dias
As vozes do teatro me seguiam até em casa
Era puro assombramento aquilo
Feito gente do passado
Feito coisa viva na memória do que eu era
O teatro até hoje me ronda de dentro pra fora
Feito um fantasma de mim mesma
(09.10.2020)
quinta-feira, 13 de abril de 2017
E COM QUANTOS PAUS SE FAZ UMA CANOA?
Com quantos meninos se faz uma roda?
Com quantos caminhos se constrói estrada?
Com quantos beijinhos virou namorada?
Com quantos sorrisos se ganha a parada?
Com quantos carinhos se diz funcionária?
Com quanto capricho se faz melindrosa?
Com quantos aplausos se é premiada?
Com quantos domingos se está descansada?
Com quantos momentos se constrói a vida?
Com quantas vitórias se vence uma guerra?
Com quantos lamentos se sofre calada?
Com quantas feridas se faz machucada?
Com quantas camadas se adoça uma torta?
Com quantos suspiros se sonha acordada?
Com quantos limões vira limonada?
Com quantos alqueiras se planta uma horta?
Com quantos assuntos se monta uma prosa?
Com quantos senões se arruma uma briga?
Com quantos amigos se é adorada?
Com quantos dinheiros se compra uma vida?
Com quantos adeuses se faz despedida²
Com quantos tropeços se acerta o passo?
Com quantos temperos se tem cozinheiro?
Com quantos pedidos se realiza o desejo?
Com quantas estrelas se conta uma noite?
Com quantas auroras nasceu mais um dia?
Com quanta demora se aparam as arestas?
Com quantas fogueiras se esquenta uma festa?
Com quantos acordes se canta a toada?
Com quantos pliés nasce a bailarina?
Com quanta beleza reluz uma rima?
Com quantas estrofes se escreve poesia?
quinta-feira, 6 de abril de 2017
Tudo o que escorre e não seca
terça-feira, 4 de abril de 2017
Música e escrita
A primeira música é Fazenda.
Água de beber
Bica no quintal
Sede de viver tudo
E o esquecer
Era tão normal que o tempo parava
E a meninada respirava o vento
Até vir a noite e os velhos falavam coisas dessa vida
Eu era criança, hoje é você, e no amanhã, nós
Água de beber
Bica no quintal, sede de viver tudo
E o esquecer
Era tão normal que o tempo parava
Tinha sabiá, tinha laranjeira, tinha manga rosa
Tinha o sol da manhã
E na despedida, tios na varanda, jipe na estrada
E o coração lá
E esse aqui? Coidiloco.
Cronologicamente, ele é anterior ao outro (de 1975), mas na minha ordem de descoberta na vida, o outro veio antes. Esse tem cada arranjo e cada verso que rearranja tudo dentro da gente...
Vem escrever!
As oficinas-musicais do Liberte o Escritor foram criadas a partir da minha experiência particular como escritora. Eu sempre juntei as duas coisas. Ouvir música, cantar, improvisar-compor e escrever. Ou seja, minhas referências na literatura são musicais também. Muita coisa que eu escrevo, começo cantando de improviso, brincando de fazer música e depois vai virando poema, história.
segunda-feira, 3 de abril de 2017
Estela do rio
Feita com a Pedra-do-Sol


