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sexta-feira, 9 de outubro de 2020

Sinais

Foi por um triz que não fui atriz

O teatro foi o primeiro doce, o primeiro bom bocado

O primeiro gozo que eu tive

O primeiro gosto na boca, na alma


Foi o blend do camarim

A primeira farejada

O chiado da plateia fervendo

O cochicho de bicho de coxia


Amatriz eu inventei de ser

No teatro eu me derretia

Feito batom no calor do holofote

Era ouvir o gemido das almas do teatro

E eu me desmanchava na poltrona


Os pés empoleirados nas cadeiras

Eu, arrepiada de susto e de frio 

Procurava qualquer fio de luz no breu

Encolhida de alegria e espanto


A trilha não conhecia

Mas cantava de cor por dias

As vozes do teatro me seguiam até em casa

Era puro assombramento aquilo


Feito gente do passado

Feito coisa viva na memória do que eu era

O teatro até hoje me ronda de dentro pra fora

Feito um fantasma de mim mesma



(09.10.2020)



terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Mar, de Minas


Esses mares de Minas ...


Olho, me parecem montanhas


Seriam: não tivessem ondas, não fossem azuis


(Fotos: Márcio Sodré)

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Abraço de sanhaço



Abraços são braços dando um  laço. 
Laço é azul amarrado em pedaço. 
Pedaço é traço do abraço. 
Traço é braço fora do abraço. 
Braço é despertar de abraço. 
Despertar é abraço que amassa - antes de ser afrouxado. 
Afrouxado é casal antes de amasso. 
Amasso é abraço de sanhaço.

E quem souber imitar canto de sanhaço ganha amasso e abraço.

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Morrem espaços de leitura, morrem leitores


Em 2011, as livrarias do Rio estavam desaparecendo como estrelas em noites chuvosas.

Em 2015, algumas bibliotecas públicas do Rio estão sendo fechadas. Outras terão seus horários de funcionamento reduzidos.

O que será de uma cidade que não ama seus espaços de leitura?

O que será de um povo que não é respeitado no seu direito de emprestar e comprar seus livros?



Uma porta que se fecha
Porta para dentro dos livros
Fresta para a letra viva
Festa aberta das palavras

Uma breve narrativa
Encerra a porta fechada
A história interrompida
É uma festa que se finda

É uma letra-estrela que vaga
Narrativa que é ainda
Uma outra estranha festa
Da palavra desusada

Não saberão os meninos
Como rimar os momentos
Não saberão as meninas
Como driblar sentimentos

Como resolver o teorema
Desta vida que se encerra
A alma que não se empresta
Da porta que ora está morta

Uma porta que se fecha
Porta para dentro dos livros
É a memória desnutrida

Morte e letra severina
É o cerro da corrente
Da sina da língua viva


 Fevereiro de 2011. Quando a Letras & Expressões foi fechada.

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Flicts

Se o mar fosse amarelo

E o céu fosse lilás

E a folhagem, cor de rosa

E o sol, verde-esperança


Se as raízes fossem roxas

E as nuvens, azuis-piscina

E a areia, cor de abóbora

E a Terra, violeta


E se as cores do arco-íris

Não tivessem cor nenhuma

Ainda assim, a lua seria Flicts

(28/10/2015)

Se o mar


Se o mar não sorrisse

Se o mar não sentisse

Se o mar não sonhasse

Se o mar não quisesse

Se o mar não ficasse

Se o mar não joiasse

Se o mar não derramasse o seu amor


Talvez o sol não nascesse

O sol não raiasse

O sol não brilhasse

O sol não dourasse

O sol não pulsasse

O sol não criasse

O sol não derramasse o seu calor

(28/10/2015)

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Amor no mar

Foto: Tamiris Barcellos


Não espere de mim que eu minta
Não espere que eu nada sinta quando você tocar
Para mim (em mim)
Essa coisa boa 

O amor no mar é azul

Não espere que eu seja outra (a outra)
Não demora que eu fico rouca (louca)

O amor no mar é azul

Não condene se eu sonho à beça
Não devore com tanta pressa 

O amor no mar é azul

Não perdoe os meus defeitos
Não me cobre os seus direitos

O amor no mar é azul

Não espere que eu te desculpe
Não espere que eu não te culpe

O amor no mar é azul

Não repare que eu choro pouco
Não repare que eu minto um pouco

O amor no mar é azul

Não espere que eu me disfarce
Não impeça que eu me cale

O amor no mar é azul

Não relembre o seu desquite
Não estrague a nossa noite

O amor no mar é azul

Não regule minha metade
Não traduza minha verdade

O amor no mar é azul

Não controle os meus caprichos
Não evoque os meus demônios

O amor no mar é azul

Não provoque os meus temores
Não persiga os meus amores

O amor no mar é azul

Não confunda os meus conceitos
Não detone os meus trejeitos

O amor no mar é azul

Não regule nem mais um beijo
Mas não sacie todo desejo

O amor no mar é azul
Azul, azul, azul


segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Lua Branca

Oh, lua branca
Já vou ser breve
mas, esta noite,
Por que me segue?

Na estrada negra
Deserta e quente
Só a lua branca
Persegue a gente

Oh, lua branca
Te acho estranha
Lua envolvente
Você me assanha

Ó, lua branca
É o que sinto:
És muito bela
Nisso, não minto

Ó, lua branca
Se minha fosse a estrada
Seria sua a festa
Nessa madrugada

Lua redonda que se insinua
Neste poema e continua
A me seguir
Na estrada nua

Narro o que vejo
Te emoldura um sol
E os dois me guiam
Como um farol

Está aí ainda, lua insistente?
Até aonde vai, lua carente?

Lua ardilosa
Eu desconfio
Você me engana
Ou eu te crio?

Está cá comigo
Seguindo viagem
Mas não existe
É uma miragem

É nova a estrada
Minguante a vida
Ó, lua cheia
Não há saída

Ó, lua branca
No céu tão alta
De manhãzinha
Me fará sua falta

Só mesmo não entendo
Em que parte está
Você vai comigo
Até onde eu chegar?

Ó Lua branca de primavera
Roubou meu poema
Quer ser mesmo eterna?

Então, me responda
Se é essa sua sina
Pela estrada afora
Seguir a menina?

(2012)

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Ah, periferia


Como eu queria, periferia, que não te ferissem mais



Periferia, eu preferia que todos a vissem assim



 Se eu pudesse te contar, seria apenas essa a minha crônica de ti

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Tomara

Tomara não pense muito
Tomara não pese nunca

Tomara valha a demora
Tomara que possa tudo

Tomara não canse a espera
Tomara não se aborreça

Tomara caiba na rede
Tomara a poesia cresça

Tomara o medo me esqueça
E a entrega prevaleça

Tomara um monte de coisa
E tomara que aconteça

Tomara que a vida ande
E o riso permaneça

(29/08/2015)

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Lenda, Lenda

Quando você redescobrir o Brasil
Não tenha medo de bicho grande que voa
Nem de montanha que anda
Nem de gente que tem olhos no mar
Quando você redescobrir o Brasil

Quando você redescobrir o Brasil
Não tenha medo de comer algo que pula da árvore
Não vigie os ouvidos para que não entre choro de Pixinguinha
Não evoque todos os santos, receba os orixás com os mares, os ventos e os luares abertos
Quando você redescobrir o Brasil

Quando você redescobrir o Brasil
Prepare-se para mexer o taxo de goiaba madura
E o taxo de banana madura
E o taxo de leite no seu caldeirão de cobre
Não para que vire doce,
Você vai ver que o nome dessa receita é felicidade
Quando você for redescobrir o Brasil

Quando você redescobrir o Brasil
Abandone os sapatos
Para andar pelos grandes sertões e pelas veredas
Abandone as horas
Quando for ler os muitos os que você precisa ler
Quando você redescobrir o Brasil

Quando você redescobrir o Brasil
Aprenda a língua dos riachos
Pinte o corpo para dançar
Coma desprezando colher
Alias, por favor, desinvente o talher
Quando você redescobrir o Brasil

Quando você redescobrir o Brasil
Espere o breu da noite acender as estrelas
E tente acender o fogo com as mãos
Deite-se em comunhão com os seres que chegarão sem serem vistos
Para ouvir os seus pensamentos
Quando você redescobrir o Brasil

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

A falta de sentido


Não têm sentido as contas, os contos, os deadlines, as revisões, as reuniões, a oficina, o pilates, a análise.
 
Não têm sentido acordar, tomar banho quente, passar hidratante, colorir as unhas, aparar as pontas. Não tem sentido assinar cheque, ligar pro cartão, discutir com o gerente, processar a Net, entrar no Facebook, comprar fruta, tirar xerox, mandar e-mail.

Nem o prazo pra entregar tem sentido.
 
Nem tirar certidão. Nem autenticar.
 
Nem madrugar. Nem não dormir.
 
Não tem sentido o projeto. Nem o outro lançamento. Nada.
 
Não tem sentido novembro. 
Não tem sentido dezembro.

Há uma inutilidade desconcertante que está me esmagando hoje.

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

O gato




Esse meu gato bonito
Por tudo o que faz e não faz
E que por nada me ama
E só de amar é capaz

Esse meu gato valente
Tem um segredo no peito
Para ter cama e carinho
Tem que me adorar direito

Esse gatinho safado
Que não me deixa dormir
Faz concerto de miado
Não tenho pronde fugir

Essa balada noturna
Ainda acaba comigo
Se não fosse tanto amor
Eu diria que é castigo

Pior foi que a serenata
Durou até de manhã
Melhor aceitar o fato
Dormir hoje: só amanhã

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Colo de mar


Caminho de lá, louco e longe
Nas trilhas com vagar danço
Um olho em todo o lugar
O outro a mirar defronte

Colo o ouvido no mar
Colho a espuma
Escolho a pérola
Brinco de anel e colar

Do mar ecoam enredos
Evocam prantos de estrelas
Cavalos marinhos gracejam
Revelam das ondas os medos

Da ilha a gaivota aponta
Fundo à vista
Feixe esconde peixe
O silêncio não conta

Desponta cor de laranja
Horizonte do pé a ponta
Janaína desponta o Sol
Maré se recolhe, tonta

Vento anuncia a noite atracar
Já tantas estrelas postas
Uma concha a me aninhar
Ouriço a me coçar as costas

Navios não me verão partir
Para longe do mar como antes
Salgado rio gigante
Caminho de cá, louco e longe


(outubro de 2013)

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Adivinha do tempo ao vento


O tempo perguntou se o vento podia levar pra longe toda a dor que há no mundo
O vento respondeu ao tempo que enquanto houver vida no mundo haverá a dor

O tempo perguntou se o vento podia levar pra longe toda a solidão do mundo
O vento respondeu ao tempo que enquanto houver homens no mundo haverá a solidão

O tempo perguntou se o vento podia levar pra longe toda a ingratidão do mundo
O vento respondeu ao tempo que enquanto houver coração no mundo haverá a ingratidão

O tempo perguntou se o vento podia levar pra longe todas as pedras do fundo
O vento respondeu ao tempo que as pedras construíram versos
Dos poemas que há no mundo

O vento perguntou ao tempo quanto tempo o vento tem
O tempo respondeu ao vento que o vento tem muito tempo
Em quanto tempo ele vem?

Se ele não vier com o vento
Eu invento enquanto é tempo

Outro tempo pro meu bem

(2003 - Para Marina, irmã mais bonita que eu podia querer) 

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Desentendido

Então, Deus, é verdade que todo mundo parte?

Os amigos tão cedo
Os outros mais tarde

Pra essa dor latente
(mãe da dor de dente)
Que é saber da partida de um amigo querido de
Um mais do que querido amigo da gente
Não há poema que fique bonito

Então, ora, Deus, pra que serve a arte?

(Set 2003)

terça-feira, 24 de setembro de 2013

De repente, pro Vicente

Que dia sensacional
É bem-vindo o meu amor
Não precisa mais chorar
Que a Titia já chegou

Esse aqui é o tal do mundo
Que você vai conhecer
Tem muita gente esperando
Pra ver e amar você

É tudo maravilhoso
Diferente e colorido
Nem tudo é organizado
Mas é muito divertido

Olha! O mar tem carneirinhos
E a água é refrescante
O céu tem mil estrelinhas
A lua é deslumbrante

Da mamãe e do papai
Não preciso nem falar
Basta só um minutinho
Pra você se apaixonar

O Tio Antoninho e a Lu
O Vô Béo e a Titia
Vão ser os melhores amigos
Do Vicente todo dia

E tem outro tio Antônio
Que vai morar bem pertinho
E tem a supertia Helena
Que vai cobrir de beijinho
E ainda a tia Clara
Que vai mimar o sobrinho

O seu bisavô Luís e a bisa Meire também
Serão os mais orgulhosos
Quando chegar o neném
E vão paparicar tanto
Não vai sobrar pra ninguém

E tem a vovó Vivi
Que é a mamãe da Titia
É sua também a casa dela
Olha só que alegria!

Não que lhe faltem vovós
Mas isso nunca é demais
O amor é multiplicado
Maré mansa pro rapaz

Uma muito especial
É a sua vovó Alice
“Vai ser sua grande amiga”
Foi um anjo que me disse

A sua avó Ludmila
está mais bonita, gente!
É por causa da alegria
Da chegada do Vicente

O pai dela é o bivô Gadi
Que você vai adorar
Senta lá no colo dele
Pruma história ele contar

Madrinha você já tem
Mas não é exclusiva não
No coração da Amália
Tem afilhado de montão

E quem é aquela gatona
Cheia de amor pra te dar?
É a querida Lelé
Dessa você vai gostar

E ainda nessa família tem gente muito importante
Tem uma trinca lindinha
Três colinhos interessantes
Elza, Mariana e Flavinha

O seu avô Edgard,
que te faltou conhecer,
é um cara tão legal...
Mas pra que time esquisito
Ele inventou de torcer!

Essa história de futebol
Não é nada complicada
Basta ser bom rubro-negro
O resto é bola furada

Há outras coisas legais
Nesse mundo de gente bamba
Mas como o poema é meu
Vou ter que exaltar o Samba

E também dizer que o livro
É um bom amigo do peito
Não adianta ser bonitinho
Se não usar a cabeça direito

Na mundo tem outro tanto
Que mais vale viver pra ver
Do que ficar só falando
E deixando a vida correr

E só para terminar
Eu tenho que confessar
Que felicidade de Titia
É difícil de explicar

De hoje e até sempre
Sua tia está aqui
E onde você estiver
E onde você existir

(agosto de 2009)